26 December 2009

“Amaral responde aos McCann: Fiz o que pude para encontrar Maddie, mas cometi alguns erros”



O ex-coordenador da PJ considera que “um polícia não está obrigado a obter resultados”, mas sim a fazer o melhor que pode. E afirma-se convicto de que vai ganhar o processo que o opõe ao casal inglês a propósito da providência cautelar sobre o seu livro. “Não me subestimem”, avisa.

O Crime – Como responde à observação do casal, em entrevista ao nosso jornal, de que nenhum dos investigadores da PJ fez mais do que o seu trabalho, ao contrário de si, que acusou pessoas que o procurador e o juiz declararam inocentes?

O casal está mal informado. O processo não chegou à esfera de nenhum juiz, ficou-se pelo procurador. Depois, o procurador não fez um arquivamento definitivo, mas sim um arquivamento provisório, deixando o processo em “banho-maria”, a aguardar a produção de melhor prova.

Porém, o despacho de arquivamento conclui que, aos pais, não poderia ser assacada qualquer responsabilidade no desaparecimento da filha…

Também não é verdade. O que o procurador disse no despacho de arquivamento foi que o não envolvimento dos pais em qualquer ilícito “parece resultar” – não diz “resulta”, diz “parece resultar” – de um conjunto de elementos sobre os quais emitiu uma opinião. Uma opinião que vale para o processo, mas que não estabelece nenhuma verdade absoluta que limite a discussão pública. Já não estamos na Idade Média.

Não acha que tinha a obrigação de encontrar a pequena Maddie, como argumenta o casal?

Um polícia não está obrigado a obter resultados. Está obrigado a fazer o melhor que possa. Foi o que fiz, eu e os meus colegas portugueses e ingleses. Com erros, admito. Já fiz a auto-crítica da investigação no livro “A Verdade da Mentira”.

Se não tivessem sido cometidos erros na investigação, teria sido possível encontrar a menina com vida?

Talvez tivéssemos encontrado a menina. Nada mais posso dizer por causa da providência cautelar.

Os McCanns estão convencidos de que a tese da suposta morte de Madeleine prejudica as diligências que estão a ser empreendidas no sentido de a encontrarem viva…

O procurador do Ministério Público que arquivou o inquérito – e distribuiu o despacho de arquivamento à comunicação social do mundo inteiro – escreveu nesse despacho que a morte de Madeleine é o cenário “mais provável”. E ainda não foi processado.

Os McCann acusam-no de se pronunciar sobre situações relacionadas com a família deles, coisas que eles não fazem em relação à sua…

Eu pronuncio-me sobre um processo criminal e não sobre situações relacionadas com a família deles. E eles não se pronunciam sobre situações relacionadas com a minha família porque não precisam. Talvez haja quem o faça profissionalmente e sem que eles próprios saibam. Há muitos que se esquecem que trabalhei 30 anos na investigação criminal. Na altura certa vou requerer as diligências de prova adequadas e descobrir a verdade e a reparar os danos que sofri.

É verdade que, até agora, não perdeu nada, nem sequer os únicos dois euros que manteve depositados nas suas contas bancárias?

Até agora não perdi nada, nem vou perder. Eu vou ganhar o processo, pode ter certeza. O que aconteceu foi que me congelaram rendimentos com o objectivo de me impedirem de fazer face às despesas de tribunal e ao pagamento de honorários a advogados. Tem a noção de quanto custa suportar um processo destes? Custa uma fortuna. Aliás, muito mais de que o meu Jaguar…

Por falar em Jaguar, diz-se que foi comprado com os lucros do livro “A Verdade da Mentira”…

Mas não se diz que, antes deste Jaguar comprado em segunda mão, eu já tinha outro, mais antigo.

No seu livro “A Mordaça Inglesa”, critica de forma contundente a decisão judicial que ordenou a retirada do mercado, do livro “A Verdade da Mentira”. Quer explicar?

Digo que é uma decisão ilegal, uma decisão injusta, um caso de censura. O tribunal ao não me ouvir antes de decretar a providência cautelar, decidiu apenas com base nos elementos que lhes foram apresentados pelos McCann. O tribunal não conhecia os fundamentos do que afirmei no livro e, por isso, tomou as minhas palavras como uma ofensa gratuita e não como uma opinião fundamentada.

Acha que depois da inquirição das testemunhas que apresentou, a decisão vai ser revertida?

Acho. Apresentei testemunhas e apresentei o próprio processo criminal para análise do tribunal. Tais elementos de prova serão, na minha opinião, suficientes para a senhora juiz obter o esclarecimento que até então não possuía. Eu contactei com juízes durante quase 30 anos. Tenho entre juízes muitos amigos. O que eles fazem é sempre fundamentado nos elementos que têm à sua disposição e, neste momento, a senhora juiz do tribunal cível de Lisboa já tem mais elementos de que tinha anteriormente. Por isso, estou convicto que vai decidir a meu favor.

O casal McCann sentiu-se difamado com as suas conclusões no livro “A Verdade da Mentira”.

Não é o facto de uma pessoa se sentir ofendida, ou se dizer ofendida, que legitima a censura de uma publicação. Se assim fosse e se a generalidade dos cidadãos tivesse a capacidade económica dos McCann, nenhum jornal sairia para as bancas. Metade das páginas ficaria em branco. Uma notícia, tal como uma opinião, não tem que estar correcta para ser livremente expressa e publicada. Tem é que estar fundamentada, tem é que ser concebida sem o propósito de agredir alguém.

“A Mordaça Inglesa” também critica violentamente os políticos. Porque?

Algum reputado político deste país se insurgiu contra o que me aconteceu? Mas quando são eles próprios, ou os seus amigos, alvos de um procedimento judicial, ainda que por pedofilia ou corrupção, vêm logo todos a terreiro ofender os juízes, os procuradores e a polícia judiciária, dizendo que estão manipulados politicamente, que são uns incompetentes, etc.

Estava à espera que políticos criticassem a decisão do Tribunal Cível de Lisboa?

O mínimo que eu esperava é que os políticos tivessem vindo à praça pública dizer que o instituto dos procedimentos cautelares tem de ser repensado para que nunca mais fosse possível um juiz decidir a limitação da liberdade de expressão de um cidadão apenas com bases nos elementos que lhe são fornecidos pela parte que se diz ofendida. Isto é censura e não há volta a dar.

Dependendo do resultado deste processo, vai parar por aqui?

O futuro a Deus pertence. Mas se eu tiver condições económicas, ainda pode haver surpresas. Estive quase 30 anos na Polícia Judiciária. Não me subestimem.


Jornal Semanário O Crime, edição em papel, publicado em 2009.12.23





7 comments:

  1. Como se diz em Minas Gerais, isso aí tá bão, tá muito bão mesmo.
    Amaral com muita confiança em sí e nós com confiança nele e na justiça portuguesa.
    Vai dar certo a defesa dele.
    Se os McCanns estão preocupados porque ninguém procura mais a menina, por quê não reabrem o processo?
    Aliás não reabrirem o processo será uma bênção para a PJ pois eles poderiam aparecer com uma tremenda quantidade de pistas, um chinês em Pequim, uma mulher no Alaska, dando uma tremenda trabalheira.
    O crime aconteceu no Algarve e será resolvido lá.
    É no Algarve que a menina está enterrada.

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  2. Joana, minha ceia de natal deu certo.
    Um bom sinal pois sou supersticiosa.
    Sinal que vai dar certo com o Amaral e com o seu blog(que aliás sempre deu).
    Minha filha da sua idade veio com o namorado novo, um homem muito bom,também viúvo como ela é, e eu te desejo tbém um companheiro tão bom quanto ele é.
    Quem sabe ele tem um brôther, um côusin ainda sem companheira?

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  3. M Amaral you have more support then we realise, you are a hero!!

    2010 is the year inwhich Team McCann will be brought to account for everything they have done in there cover up of Maddies demise!

    Brown will be gone soon !!!!!!

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  4. My dinners from now on will also go well!!! we know reading this that they will be justice for Maddy, best wishes for 2010 Team Mccann you are going to need it!!!!!

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  5. Entrevista esclarecedora. O Gonçalo Amaral tem postura firme, assertiva e tem, acima de tudo, coluna vertebral. Sem arrogância como casal britânico que tão mal representou os ingleses no estrangeiro: não passando o dia com os filhos que ficavam à guarda da creche e abandonando-os à noite num apartamento várias horas sozinhos, num país estrangeiro quando o resort despunha de babysitting. Na véspera do seu misterioso desaparecimento Madeleine chorou e chamou os pais durante mais de uma hora como testemunha uma vizinha.

    Conseguem imaginar o sofrimento e o medo que uma criança com 3 anos sente quando acorda num espaço estranho e chama pelos pais e eles não estão lá?

    Afinal a negligência é transveral a todos os estratos sociais. Não se esqueçam que os restantes casais repetiam o padrão de abandono nocturno desapaixonado preterindo os filhos a jantares bem regados.

    Depois mandam recados pela imprensa a dizer que quem bebe é o polícia.

    Este pelo menos, com salário magro e muitas horas sacrificadas ao serviço da justiça tem as três filhas em casa.

    Se calhar também com sacrifício da mulher que não tem tempo para fazer jogging ou jogar ténis ou fazer posse para a imprensa.

    Sem desprimor para o jornal Crime gostava de ver esta entrevista a acontecer no Público e no Diário de Notícias por exemplo. Os portugueses continuam indiferentes ao que se passa no seu país e a fazer vista grossa ao que está mesmo à frente do seu nariz.

    Não percam a vossa capacidade de indignação, porque é a nossa coluna vertebral. Cravos em Janeiro!
    Alexandra Correia

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  6. G. Amaral reconheceu que cometeu erros na investigacao. Tal como nao ha crimes perfeitos, tambem nao ha investigacoes perfeitas. E por isso que uma investigacao precisa de tempo e calma para voltar atras e refazer caminhos, rever pistas, reconsiderar. Foi essa oportunidade que Amaral nao teve ao ser precipitadamente afastado e ao ver o caso arquivado com um enorme caminho por percorrer.
    E OS MCCANN, CUJOS ERROS SAO VISIVEIS ATE PARA OS MAIS DISTRAIDOS, MAS NUNCA RECONHECERAM o QUAO MAUS PAIS SAO? Nao basta comprar brinquedos de luxo quando o mais precioso para as criancas nao e dado- Atencao, CARINHO, TEMPO PARTILHADO. Estas criancas sofreram sozinhas nas ferias que o mundo viu, sozinhas a noite e acantonadas na creche durante o dia.
    O Freeport e a Face Oculta com as escutas a Socrates a serem ridiculamente escondidas e descreminalizadas, foram uma machadada nos Mccann porque revelaram que a PJ tinha razao quando se queixava de pressoes e manipulacao politica na investigacao ao caso Maddie. Esta explicado porque foram recusados passos fundamentais para a obtencao de prova e para o esclarecimento do crime: As escutas aos telemoveis, o acesso aos SMS e as contas bancarias e a investigacao as Fichas medicas de Maddie e Kate. Mas ha um Deus que nao dorme e para o qual as criancas sao pedra basilar, por isso esse Deus algures, no proximo ano, ha-de ajudar a fazer-se luz sobre onde esta Madeleine e o que lhe aconteceu.
    Todos sabemos porque a providencia cautelar foi feita sem ouvir Amaral. Se ouvissem Amaral, automaticamente o processo contra Amaral faria re-abrir o processo Maddie. Esse e o terror dos Mccann, porque sabem que o arquivamento e debil e resulta da debil opiniao de um procurador cuja reputacao esta na lama. Na realidade nenhuma prova contra eles foi refutada e abandonada. Por sua vez, eles nunca conseguiram apresentar a mais pequena prova de rapto. Nenhum juiz, nenhum tribunal os ilibou e declarou inocentes. Eles sabem que nenhum tribunal isento e incorrupto o podera fazer. Vivem sufocados numa especie de limbo que nao durara eternamente. Basta que Amaral seja inteligente e persistente. E NOS ESPERAMOS QUE O SEJA. Para milhoes de portugueses, ele nao e mais um ex-PJ, e um heroi a lutar contra um casal de viloes assessorado por advogados avarentos. E o unico que respeita a crianca.
    O desrespeito dos Mccann pela filha, e tao grande que numa epoca natalicia ate inspiram mentes perversas que se fazem passar por raptores na NET e contam anedotas sobre o paradeiro de Maddie. Mas estes, os Mccann nao ousam perseguir ou processar, sao iguais a eles.
    AMARAL NAO SE CALE!!! O POVO PORTUGUES ESTA CONSIGO E o INGLES BEM INFORMADO, TAMBEM...

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  7. Os pais de Maddie McCann são, não tenho dúvidas, os mais infelizes dos seres. Se a filha de ambos foi vítima de um rapto ou vítima de um acidente doméstico – isso é, em matéria de sofrimento efectivo, mais ou menos irrelevante.
    Também não me parece censurável – admitindo a tese do acidente doméstico – que os pais da menina, em desespero, hajam procurado o auxílio dos media ingleses e até do poder político. É um drama imerecido, para quem sofre a perda de um ente querido, correr o risco de ser preso por causa disso.
    Tenho assistido, entretanto, ao longo dos últimos dois anos, a declarações sucessivas dos pais da menina desaparecida e da sua equipa de advogados e de promotores de imagem, todos eles, calculo, pagos a peso de ouro por um Fundo entretanto criado por terceiros crentes na tese do rapto.
    No outro lado da contenda encontra-se um ex-polícia português: Gonçalo Amaral, autor do livro “A Verdade da Mentira”, que já li; que reli, até, depois da decisão judicial que ordenou a sua retirada do mercado.
    Se - repito: se - o que naquele livro se relata corresponder à verdade, ou seja, se, de facto, no processo criminal que correu em Portimão, foram efectuadas diligências processuais donde sobressaiu, aos olhos dos investigadores, que, com grande dose de certeza, o rapto não pode ter ocorrido, então há que admitir que a tese mais provável é a do acidente doméstico.
    Ouvi, há dias, Gonçalo Amaral dizer que «o que está no livro, está no processo” e que «se o livro foi censurado, também o processo deveria ser», tendo acrescentado que anexou um C.D. com o processo digitalizado aos autos que correm os seus termos nas Varas Cíveis de Lisboa.
    Isto será rigorosamente assim? O que está no livro, está no processo? O processo já está na posse das Varas Cíveis de Lisboa? Se assim for, concluo que a Gonçalo Amaral foi imposta, pela justiça portuguesa, uma mordaça totalmente injustificada e que poderá sair bem cara ao próprio Estado Português.
    Algo mais me impressiona no meio de tudo isto: a segurança, o à vontade, que Gonçalo Amaral patenteia nesta altura do campeonato em que supostamente já deveria estar totalmente esfarrapado.
    Eu comprei e já li o novo livro de Amaral - “A Mordaça Inglesa” - e fiquei com os olhos em bico. Por duas razões.
    A primeira razão é que Gonçalo Amaral demonstra que não é, e que provavelmente nunca foi, o polícia-tipo: maltrapilha, algemas à cinta, palavrão na ponta da língua. Ele é, ou parece ser, um jurista culto, um homem educado e bem vestido, um bom pai de família. Algo a que os portugueses não estão habituados.
    Mas a segunda razão é ainda mais importante. Impressiona, até, porque dá a ideia de que houve uma prévia combinação - e não houve, seguramente - entre Kate McCann e Gonçalo Amatal.
    Com efeito, na manhã de 11 de Dezembro, Kate afirmou, à porta do tribunal de Lisboa, que «a liberdade de expressão não deve incluir a distorção da verdade, mentiras, falsificação de factos e difamação». E na tarde desse mesmo dia Amaral lançou uma nova publicação - “A Mordaça Inglesa” - na qual explica por que motivos (i) não distorceu a verdade, (ii) não exprimiu mentiras, (iii) não falsificou factos e (iv) não incorreu em difamação.
    Com toda a franqueza, parece-me que o casal McCann - em desespero e por necessidade! - embarcou num navio mediático que nunca dominou e que jamais conseguirá dominar. Se o navio se irá afundar, como o Titanic, ou se irá permanecer em maré alta durante muitos anos, só o futuro o dirá.
    Quanto a Amaral, o mais provável é que perca em toda a linha. A decisão das Varas Cíveis de Lisboa faz recear o pior. A própria juíza não se quer arriscar a perder o emprego. Também a compreendo. Eu faria o mesmo.
    Bem reza a História que os portugueses nunca se deram bem com os filhos de sua majestade. Nunca. E, ainda por cima, lembrando Camões: «Entre os portugueses, traidores houve algumas vezes!»

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