28 January 2010

Os Cavaleiros do Apocalipse


O Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel “O Velho”, 1562, 
óleo sobre tela, 117 x 162 cm. Museu do Prado

por Antonieta Janeiro

O aproximar do primeiro inverno da primeira década deste século fazia já prever algo de assustador.

Portugal, país onde não costuma haver grandes catástrofes, vivia num calor abafado que se prolongou pelo princípio de Dezembro, mergulhando tudo e todos numa humidade pegajosa.

Seguiu-se um sismo e, de imediato, mergulhámos num frio súbito a anunciar o Natal.

Quase logo em simultâneo chegou o dilúvio __ dias e noites de água continuada, de rios e ribeiras que transbordavam, de vidas humanas e de bens que se perdiam sem que, ao menos, os termómetros ousassem subir.

A seguir, veio o vento soprando em rajadas.

Frio, chuva, mar agitado, vento forte, foram as constantes de um Natal que nem permitia que se acendesse uma lareira.

As casas destelhavam-se, árvores centenárias eram arrancadas pelas raízes, correntes de lama subiam assustadoramente, os dias eram passados em casa olhando as nuvens ameaçadoras através das vidraças e ouvindo o uivar contínuo do vento sobre a natureza.

O nosso Oeste foi varrido por um tornado, dizem uns, por um tufão, dizem outros; e o Algarve quase desapareceu na lama, espartilhado entre um Oceano embravecido e as terras barrentas que corriam furiosamente serra-abaixo, arrastando na corrente tudo o que lhes barrasse a correria: as árvores que o vento arrancara, os caminhos e as alfaias, as areias das praias que subiam à montanha, amalgamando tudo num emaranhado de ramos de palmeira, pernadas de amendoeira, raízes de oliveira, restos de barcos e redes de pesca, formando ora ilhas, ora penínsulas, misturando água doce com água salgada, a Terra sempre fustigada por trovoadas, vendavais, frio e escuridão.

As nossas terras altas foram a noivar, como sempre nesta época, mas neste Inverno com o perigo iminente à espreita de desabamentos, de estradas cortadas, de acidentes vários.

Foi neste caos que entrámos no novo Ano e na primeira década.

O frio, a chuva e o vento mantiveram-se e ameaçavam piorar.

As notícias desta aldeia global em que o nosso planeta se tornou, davam-nos conta da fúria com que os deuses castigavam os homens: por um lado incêndios, por outro dilúvios; por um lado calor tórrido, pelo outro frio polar.

Os Cavaleiros começavam a aparelhar as suas montadas para o Apocalipse.
A Guerra já derramava o sangue pela Terra.
A Fome já grassava pelos povos.

E, de súbito, as entranhas do Planeta estremeceram e derramaram-se sobre o solo. Os paraísos de férias desapareceram dos mapas, varridos por terramotos em cadeia.

Desapareceram águas de jade, colinas de coral, desapareceram e desfizeram-se milhares de seres humanos __ é o Cavaleiro da Morte que começa a ceifar a Vida.

Muitos milhares de órfãos vagueiam, agora, pelo Planeta, por meio de cadáveres, de olhos vazios, de pés feridos e descalços, tentando entender o caos que os rodeia, entregues à sua sorte.

São acolhidos pelo Cavaleiro da Peste.

E perante as nossas mentes ainda aturdidas, chegam a Portugal os dois arautos destes quatro Cavaleiros. __ Um casal britânico que, há cerca de três anos perdeu uma criança em Portugal com a displicência com que poderia ter perdido a chave do carro, ou a toalha da praia ou, até, um maço de cigarros …

Simplesmente perdeu-a. Não há outra explicação.

Ficaram três crianças menores de três anos, sozinhas noite após noite num quarto de hotel com a porta no trinco, enquanto os pais jantavam e se divertiam com amigos.

E, assim, uma noite uma das três crianças sumiu da face da Terra. Sumiu como as crianças do Haiti sumiram e acordaram, um dia, noutro planeta.

O casal cismou que a culpa é toda nossa; que não temos leis nem polícias; que somos um povo atrasado; que não sabemos cuidar daquilo que é dos outros.

E, portanto, quando a crise começou a bater-lhes à porta decidiram voltar ao país atrasado, na ponta do fim do mundo.

Acusaram o polícia encarregado de investigar o bem que eles tinham perdido, acusaram-no de os difamar e de lhes manchar o nome.

Mandaram que lhe congelassem o salário e lhe apreendessem um livro que tinha publicado.

E exigiram que todos os exemplares do livro fossem queimados.
E exigiram que pagasse uma fortuna de cada vez que mencionasse os seus nomes impolutos.

Todas estas exigências em nome do desgosto provocado pelo desaparecimento da criança que eles tinham perdido__ a filha que eles não souberam guardar!

E, enquanto Portugal se vai recompondo das suas feridas, e mais feridas vão sendo abertas por todo esse mundo, o casal decidiu comemorar os 1000 dias do desaparecimento da criança.

Comemorar como? Angariando fundos para os órfãos do Haiti? Adoptando um deles para apaziguar as suas consciências?

O casal inconsolável decidiu comemorar o desaparecimento da filha organizando um banquete festivo no mais caro e mais requintado restaurante londrino!

Assistirão ao espectáculo e ao banquete os mais ricos, os mais famosos, as mais importantes famílias dos Quatro Cantos do Mundo, como nos contos de fadas. Só por convite.

Os benefícios revertem, dizem, para um «Fundo» destinado a encontrar a filha que abandonaram por aí …

Certo, certo, é que os Quatro Cavaleiros do Apocalipse irão, mesmo sem convite, estar presentes no Festim!






6 comments:

  1. Bom dia!

    Este magnífico texto de Antonieta Janeiro está suberbo,traduzindo tão bem as horrorosas afrontas da Natureza e da natureza humana.Complementa muito bem o TEXT, em http://textusa.blogspot.com/2010/01/1001-days.html

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  2. Acho que suberbo não está bem. Soberbo.

    Esqueci de pedir (mas já devem estar a tratar disso)que este texto arrasador sobre as tragédias merece a Vossa tradução em inglês para que muitos mais o consigam ler .

    Copiei!Espero que não se ofendam mas merece ser divulgado,por todas as vítimas das calamidades,sejam elas vindas da Natureza ou da falta de qualidade de seres,supostamente humanos.

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  3. :)] De profundis... Mais uma razão para os Mc's deixarem as opiniões do Gonçalo Amaral em paz e picarem a mula de volta ao anonimato mas qual o quê! Caíram agora na tentação do milhão...

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  4. A VIP dinner per invitation only? Anyone from thinking and responsible UK society: Rowan Atkinson? Ema Thompson? Hugh Grant? Daniel Craig? Jude Law? Julie Andrews for instance? I know Peter O'Toole and Anthony Hopkins weren't there.

    What about responsible writers like Glyn Hughes? Barry Unsworth? Christopher Flope? Miranda Carter? Sarah Maguire? Colin Thubron? Kate Atkinson? I've noticed that David Lodge and Tom Sharpe weren't there.

    What about politics: I know Blair and Brown weren't there either but was there Howard Jacobson, P.D. James, David Cameron? Anyone from the House of the Lords? Was Clarence there? I think he is busy avoiding the Wonder Couple and future complications, don't you agree?

    What about free and intelligent musicians like: Beth Gibbons, Coldplay, Mick Jagger, David Bowie, PJ Harvey, Muse, Jose Stone, Belle and Sebastion?

    And were there some contemporary artists like: Tasha Amini, Hurvin Anderson, Robert Dowling, Alexander Hoda, Paul Johnson, Daniel Silver or Anthea Hamilton. Artists used to be very generous with good and honest causes. Were any one of them there? Can you confirm for me, please?

    Were they supported by recognized English doctors? No?

    Well, this party and their celebrities was what I thought: a very bad tasty meeting with famous people that are famous because they appear at this parties and consequently in press that covers the event and they are in press because they were in the event.

    The good people from good homes choose always not mix with people that do not offer a great credibility or a high sense of responsibility.

    Leaving small kids unsupervised, every night in a room and in a foreign country does not look good and tells a lot about your behavior.

    Even if you do not mention that in public that's exactly what you feel about it. Good people don't care about the McCanns but are too polite to say.

    Instead of dinning and drinking (we already know McCann are good at) they might see Lars von Trier latest movie, maybe they would learn more about neglect, loss and SORROW!

    Alexandra

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  5. Nao e o banquete dos famosos, e o dos perversos.

    Numa altura em que o mundo assiste a destruicao incontrolada do Haiti, porque nao e possivel pedir a natureza que se acalme e abra treguas... Num tempo em que pobres e ricos, anonimos pelo mundo, se unem numa solidariedade sem precedentes para ajudar as vitimas da Furia da natureza, os Mccann deliciam-se com banquetes de soberba e nem uma palavra de conforto para os pais Haitianos que perderam os seus filhos ou para as criancas que perderam os seus pais. CLARO, SAO VITIMAS QUE NAO INTERESSAM, NAO SERVEM NEM ENTRAM NA HISTORIA QUE ELES TEM ANDADO A CONTAR. AS ENTRANHAS DA TERRA NAO TROUXERAM RAPTORES A CASA DE CADA HAITIANO, POR ISSO PARA QUE PERDER TEMPO COM GENTINHA SEM INTERESSE?
    MARILUZ, ERA UMA HISTORIA MAIS ESCALDANTE, SERVIA O ESTILO E O MOMENTO, POR ISSO A USARAM SEM AUTORIZACAO, CONVOCARAM CONFERENCIAS DE IMPRENSA PARA SE COLAREM NAO AO DRAMA, MAS AO RAPTOR. E REZARAM PARA QUE AQUELE DEMONIACO VIZINHO DE MARILUZ TIVESSE, NEM QUE APENAS CHEIRADO, O AR DA PRAIA DA LUZ EM MAIO, EM JUNHO, UM DIA DE 2007.

    ESTES MCCANN. NAO MERECEM UM DIGITO DO DINHEIRO QUE ROUBAM, NEM UM CENTESIMO DE SEGUNDO QUE OS MEDIA LHES DAO DE ANTENA. SAO A VERGONHA DAS SOCIEDADES MODERNAS, EGOISTAS, HOMOCENTRISTAS que cultivam o NARCIZISMO e o OPORTUNISMO como filosofia de vida.

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  6. Bem observado @5 partilho desse sentimento!
    Alexandra

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