16 July 2010

Jorge de Sena: 'Não hei-de morrer sem saber qual a cor da Liberdade'


Jorge de Sena
 Poeta, Ficcionista, Dramaturgo, Tradutor, Ensaísta, Erudito e Historiador Português
Lisboa, 2 Novembro 1919 — Santa Bárbara, Califórnia , 4 Julho 1978

Seria primeiro podridão fétida, depois uma pasta pegajosa, no fim uma poeira que se não distinguiria do outro pó. Aquilo por que éramos, sentíamos, conhecíamos, existíamos, nos podíamos tornar um corpo triunfante, acabava connosco, não nos sobrevivia: apenas durava mais o cabide daquilo, sem que sequer pudesse aguentar-se em pé. Revi o esqueleto que havia no liceu, pendurado numa haste de ferro, como um enforcado, e com os ossos presos uns aos outros por araminhos. E a vida era isso: a duração daquele conjunto de carne, pela qual a nossa consciência, as nossas faculdades, o nosso «eu» existia.

Sinais de Fogo, Jorge de Sena


Documentário - Sinais de Fogo, Jorge de Sena *[ver filmografia]


Poesia Seleccionada

Quem a tem...

Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
Desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença

E sempre a verdade vença,
Qual será ser livre aqui,
Não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
É quase um crime viver.

Mas embora escondam tudo
E me queiram cego e mudo,
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.

L'été au Portugal

Que esperar daqui? O que esta gente
não espera porque espera sem esperar?
O que só vida e morte
informes consentidas
em todos se devora e lhes devora as vidas?
O que quais de baratas e a baratas
é o pó de raiva com que se envenenam ?

Emigram-se uns para as Europas
e voltam como se eram só mais ricos.
Outros se ficam envergando as opas
de lágrimas de gozo e sarapicos.

Nas serras nuas, nos baldios campos,
nas artes e mesteres que se esvaziam,
resta um relento de lampeiros lampos
espanejando as caudas com que se ataviam.

Que Portugal se espera em Portugal?
Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios como o bem e o mal
— mas com que há-de pagar-se quem se agacha e
[mente?

Chatins engravatados, pelenguentas fúfias
passam de trombas de automóvel caro.
Soldados, prostitutas, tanto rapaz sem braços
ou sem as pernas — e como cães sem faro
os pilhas poetas se versejam trúfias.

Velhos e novos, moribundos mortos
se arrastam todos para o nada nulo.
Uns cantam, outros choram, mas tão tortos
que a mesquinhez tresanda ao mais singelo pulo.

Chicote? Bomba? Creolina? A liberdade?
É tarde, e estão contentes de tristeza,
sentados em seu mijo, alimentados
dos ossos e do sangue de quem não se vende.

(Na tarde que anoitece o entardecer nos prende).

1971

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido dela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas ser's minha, não

Araraquara Dezembro 1961, publicado in Quarenta Anos de Servidão (1979))

No País dos Sacanas

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

Não, não, não subscrevo


Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.

Santa Bárbara, Fevereiro 1976 (aniversário de uma tentativa heróica
de conter uma noite que duraria décadas), publicado in Quarenta Anos de Servidão (1979) - declamado por Mário Viegas


Carta a meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E por isso, o mesmo mundo que criamos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

1963 publicado in Metamorfoses, declamado por Mário Viegas : Actor, Encenador, Dizedor de Poesia e Cidadão, Música Original de Luís Cília


Recorte de Imprensa

Diário e recordações da vida literária | foto de Enric Vives-Rubio

O regresso de Jorge de Sena

por Júlia Coutinho
publicado no suplemento P2 do jornal Público a 10 de Setembro de 2009

Jorge de Sena (1919-1978) partiu para o exílio há 50 anos por causa da ditadura e nunca mais regressou. Foi estando em Portugal de visita. Foi publicando livros e colaborando em revistas. Morreu no dia 4 de Junho de 1978, em Santa Bárbara, na Califórnia, EUA, onde ficou sepultado no cemitério do Calvário. Hoje, a partir das 10h, na Basílica da Estrela, em Lisboa, decorrerá uma cerimónia de homenagem ao poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico e tradutor. Um representante da sua família, o ensaísta Eduardo Lourenço, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, e o ex-Presidente da República António Ramalho Eanes, que era seu amigo, irão evocar o poeta. Segue-se a trasladação dos seus restos mortais para o Cemitério dos Prazeres.

Mécia de Sena, a viúva do escritor, não virá a Lisboa “por causa do impacto” que lhe causa a cerimónia. Mas a partir da sua casa em Santa Bárbara, na Califórnia, disse que o regresso de Jorge de Sena à sua pátria tem um significado muito importante para ela bem, como teria tido para ele. “Espero que seja o passo decisivo para o reconhecimento do meu marido como escritor e como cidadão”, afirmou, lembrando que a iniciativa da trasladação foi do ministro da Cultura, com a qual concordou imediatamente. “Quando o meu marido morreu, eu tive o desejo de o mandar para Lisboa, mas à última hora, apesar do empenho do general Ramalho Eanes, o Presidente da República na altura, não se processou a trasladação.”

Jorge de Sena partiu em 1959 para o exílio, porque estava “coarctado” na sua liberdade. “Saímos para ele escrever sem pensar nos limites que lhe eram impostos”, explica a sua mulher. O poeta publicou As Evidências (Poema em 21 Sonetos) em Janeiro de 1955. O livro foi apreendido pela polícia política PIDE sob a acusação de “subversivo” e “pornográfico”, conta-se numa cronologia na exposição sobre o espólio de Jorge de Sena, que pode ser visitada até hoje, na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP). Antes de partir, em 1959, o escritor envolveu-se no Golpe da Sé, uma intentona que se propunha derrubar o Governo de Salazar (Sena ocuparia o cargo de ministro das Obras Públicas, já que era licenciado em Engenharia Civil).

Jorge de Sena exilou-se então voluntariamente no Brasil, onde chegou a 7 de Agosto. “Passou a ter condições de vida e de trabalho que potenciaram a sua criatividade”, diz Jorge Fazenda Lourenço, especialista na obra deste autor. Escreveu no Brasil muitos dos poemas de Metamorfoses, uma boa parte dos poemas de Arte de Música, quase todo o romance Sinais de Fogo e o O Físico Prodigioso, além dos ensaios académicos sobre Camões. “Publicava sempre as obras em Portugal e a obra dele foi fazendo caminho”, afirma Jorge Fazenda Lourenço, sublinhado que o autor articulou o carácter ético da poesia e a preocupação estética, num tempo em que estas duas vertentes estavam dissociadas.

Nos anos seguintes, “ir a Portugal era um jogo”, porque entre 1959 e 1968 “tinha ordem de prisão”, conta Mécia de Sena. Saíram do Brasil por causa do golpe militar em 1964. “Tínhamos alergia às ditaduras. Saímos do Brasil também por causa da ditadura”, explica Mécia.

Uma cruz muito triste

Chegaram aos Estados Unidos em 1965, onde Sena começou a dar aulas na Universidade de Wisconsin. Anos depois, já era director do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada, na Universidade da Califórnia. “(…) De Portugal chegam-me elogios e um silêncio de morte, de todos os lados – como essa pátria, tirando o povo e uns raros, é vil canalha, e mesquinha… (e a minha amargura de erudito é a descoberta de que realmente o foi sempre – pelo menos do século XVII em diante, quando realmente não merecíamos senão ter continuado espanhóis). E, tudo isto, sem estímulos e sem calor humano é uma cruz muito triste de carregar”, escreveu no dia 9 de Janeiro de 1968, numa carta à sua amiga Sophia de Mello Breyner e que faz parte da correspondência entre os dois poetas editada pela Guerra & Paz.

Nesse ano, Jorge de Sena veio à Europa com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, mas a 22 de Dezembro foi detido pela PIDE, durante 24 horas, quando tentava entrar em Portugal pela fronteira espanhola. Marcelo Caetano acabou por conceder-lhe um visto de entrada.

Depois do 25 de Abril de 1974, Sena regressou à pátria já em liberdade, mas ficou apenas dois meses. “O país na verdade nunca o reconheceu. E se no tempo da ditadura podíamos achar isso natural, já não o achávamos depois do 25 de Abril. Ele gostava de ter regressado”, lamenta Mécia de Sena.

Na opinião de Fazenda Lourenço, essa ideia da incompreensão existe mais do ponto de vista do cidadão, porque como poeta sempre foi reconhecido. “Embora sempre restritamente, mas isso é o que acontece com todos os escritores portugueses.” O facto de Sena não ter sido muito acarinhado depois do 25 de Abril está, na sua opinião, relacionado com a sua independência política. “As pessoas nas universidades portuguesas nunca acharam muito bem que Jorge de Sena viesse. Às vezes pelas razões mais estúpidas!” Lembra que o poeta Joaquim Manuel Magalhães foi testemunha de uma assembleia na Faculdade de Letras onde chegou a argumentar-se que ele não merecia regressar porque já não era português e porque nunca tinha sido antifascista. “Ele sempre foi inconveniente numa altura em que as pessoas não reconheciam esse tipo de autonomia crítica. Era uma altura em que se pensava pôr nos lugares as pessoas que poderiam de algum modo ser fiéis partidariamente.”

A ditosa pátria

Para o académico Fernando Cabral Martins, o facto de Jorge de Sena ter partido para o exílio, “muito cedo”, aos 40 anos, tê-lo-á marcado com “alguma amargura”, disse à agência Lusa. A relação de Sena “com Portugal, com a cultura portuguesa e mesmo com a intelectualidade portuguesa foi difícil, desde o princípio até ao fim, foi uma relação que nunca se resolveu”. Basta lembrar o poema: “Esta é a ditosa pátria minha amada. Não./Nem é ditosa, porque o não merece./ Nem minha amada, porque é só madrasta/ Nem pátria minha, porque eu não mereço/ a pouca sorte de ter nascido nela.//”

O poeta Vasco Graça Moura diz que a trasladação é mais do que justa. “Jorge de Sena é uma figura quer da criação cultural portuguesa, quer da cidadania do mais alto gabarito e nesse sentido justifica-se plenamente que os seus restos mortais regressem ao país que esteve sempre no centro das suas preocupações: Portugal. Eu preferia tê-lo no panteão, mas de qualquer maneira já tem um grande significado simbólico que ele tenha regressado a Portugal.”

Jorge de Sena como poeta é “gigantesco e torrencial”. “É evidente que a percepção do país a partir quer do exílio brasileiro, quer do exílio norte-americano contribuiu para um enorme coeficiente de amargura em relação à maneira como via Portugal. Voltou cá, em 1977, para fazer o discurso da Guarda, a que chamava ‘o sermão da Guarda’. Foi com certeza uma grande satisfação para ele e, para nós, uma grande lição.”

Nesse discurso, no Dia de Portugal, por onde passava Camões, Sena afirmou que “os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha” e que a nossa história esteve “sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião”.

O texto deste discurso faz parte do espólio de Jorge de Sena doado pela família à Biblioteca Nacional. Do que já está em Lisboa, o mais significativo é o manuscrito de Sinais de Fogo e o epistolário que integra correspondência familiar e com Alberto de Serpa, Guilherme de Castilho, Vergílio Ferreira, Ruy Belo, Ruy Cinatti, Eugénio de Andrade e José Régio.

“Haverá muito mais coisas para mandar”, afirma ao telefone, a partir da Califórnia, Mécia de Sena. “Ainda falta ir o resto da biblioteca que cobre as paredes da casa. De inéditos haverá muito pouca coisa que esteja sem publicação em jornal ou em revistas. Quase não há. Ainda há manuscritos e há muita correspondência. São gavetas cheias de cartas de gente o mais incrível que possa imaginar.”

“Este espólio foge ao tradicional”, explica Fátima Lopes, do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da BNP. “Nota-se na organização e selecção de documentos uma mão feminina, uma mão de mulher. Mécia de Sena fez um grande serviço à investigação.”

Para a Biblioteca Nacional foram também objectos. “Isso era uma das minhas exigências”, afirma Mécia de Sena. “O escritor não é um boneco de palha. É gente. Tem que se ter no espólio o que ele era como pessoa. Como não há uma casa-museu, que haja uma sala-museu, ou melhor, uma biblioteca-museu, porque os livros não estão separados da pessoa que os escreveu. A pessoa viveu, sofreu e morreu e tudo isso tem que estar dado.” Está lá a primeira camisinha que o escritor usou bordada pela mãe, as alianças de casamento, os chinelos… Enfim, não está na exposição, mas Mécia também mandou um ursinho de peluche. “O meu marido não mudava de casa sem levar a Dona Ursa, era a sua mascote. Perguntava-me sempre onde estava a Dona Ursa.” Mécia de Sena era a guardiã de Dona Ursa e tem sido também da divulgação da obra do marido.

A Guimarães Editores [Babel] irá publicar sistematicamente toda a obra de Jorge de Sena.



Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de Novembro de 1919, e faleceu em Santa Barbara, na Califórnia, a 4 de Junho de 1978. É hoje considerado um dos grandes poetas de língua portuguesa e uma das figuras centrais da cultura do nosso século XX.


A sua infância de filho único é marcada pelas expectativas que o pai, comandante da marinha mercante, alimenta para ele como futuro oficial da Armada, em confronto com a educação musical que a mãe procura proporcionar-lhe. Em Setembro de 1937 ingressa na Escola Naval como primeiro cadete do “Curso do Condestável”, mas vicissitudes diversas da viagem de instrução no navio-escola Sagres ditam a sua exclusão da Marinha em Março de 1938. Parte importante destas vicissitudes tem que ver com o endurecimento das normas que regem a instrução dos cadetes, em consonância com a fascização do Estado Novo por ocasião da Guerra Civil de Espanha. A passagem pela Armada no preciso momento da luta pela liberdade em Espanha constitui uma experiência traumática da sua adolescência que será matéria de diversos poemas e ficções, como “A Grã-Canária” e, no caso da Guerra Civil, Sinais de fogo.


Jorge de Sena, que começara a escrever em 1936, estreando-se em 1942 com Perseguição, acaba por se licenciar em Engenharia Civil (1944) pela Universidade do Porto, trabalhando na Junta Autónoma de Estradas de 1948 a 1959, ano em que se exila no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de Março desse ano, em que está envolvido. A mudança para o Brasil permite-lhe uma reconversão profissional que vai ao encontro da sua vocação, dedicando-se ao ensino da literatura, acabando por se doutorar em Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (São Paulo), em 1964, obtendo também o diploma de Livre-Docência, para o que teve que naturalizar-se brasileiro (1963).

Os anos de Brasil (1959-65), os primeiros vividos, como adulto, em liberdade, são talvez o seu período mais criativo: completa a sequência de poemas sobre obras de arte visual, Metamorfoses (uma das obras que mais influência teve na poesia portuguesa), escreve os experimentais Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena, as metamorfoses de Arte de música e a novela O físico prodigioso, inicia o romance Sinais de fogo, investiga e publica sobre Luís de Camões e o Maneirismo, trabalha na edição do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, retoma a escrita para o teatro, etc. A alteração da situação democrática no Brasil, com o golpe militar de 1964, faz temer um regresso ao passado, quer em termos políticos quer em termos de dificuldades económicas, mas em 1965 surge a oportunidade de se mudar para os Estados Unidos, com Mécia de Sena e os seus agora nove filhos. Em Outubro desse ano passa a integrar o corpo docente da University of Wisconsin, Madison, onde é nomeado professor catedrático efectivo (1967), transitando, em 1970, para a University of California, Santa Barbara (UCSB). Durante a sua permanência na UCSB, até ao final da vida, ocupa os cargos de director do Departamento de Espanhol e Português e do Programa (interdepartamental) de Literatura Comparada. Foi ainda membro da Hispanic Society of America, da Modern Languages Association of America e da Renaissance Society of America.


A obra de Jorge de Sena, vasta e multifacetada, compreende mais de vinte colectâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um acto, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio (com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa, poetas com os quais a sua poesia estabelece um importante diálogo), à história e à teoria literária e cultural (os seus trabalhos sobre o Maneirismo foram pioneiros, tal como a sua história da literatura inglesa, e a sua visão comparatista e interdisciplinar das literaturas e das culturas foi extremamente fecunda), ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, de Portugal, do Brasil, da Espanha, da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, sem esquecer as traduções de poesia (duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson, dois poetas que deu a conhecer em Portugal), as traduções de ficção (Faulkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio (Chestov).


A criação poética de Jorge de Sena foi desde cedo acompanhada por uma intensa actividade intelectual e cultural, como conferencista, como crítico de teatro e de literatura, em diversos jornais e revistas, como comentador de cinema, nas “Terças-feiras Clássicas” do Jardim Universitário de Belas-Artes, no cinema Tivoli, como director de publicações, com destaque para os Cadernos de Poesia, como coordenador editorial, na revista Mundo Literário, como consultor literário, na Edição “Livros do Brasil” Lisboa ou na Editora Agir (Rio de Janeiro), tendo sido ainda co-fundador de um grupo de teatro, “Os Companheiros do Páteo das Comédias”, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico Romance Policial (Rádio Clube Português, Lisboa), adaptando contos de Chesterton, Hammett, Maupassant, Poe e outros.


A intervenção do intelectual nos domínios da cultura ganha novos horizontes com a actividade de docente e investigador universitário no Brasil, onde reforça também a sua acção cívica como opositor ao Estado Novo. É co-fundador da Unidade Democrática Portuguesa, de cuja direcção se demite em 1961, e integra o conselho de redacção do jornal Portugal Democrático, até 1962, participando ainda em actividades do Centro Republicano Português, de São Paulo. Uma vez nos Estados Unidos, a actividade cultural de Jorge de Sena fica restringida aos círculos académicos e da emigração (no período californiano, desempenha um importante papel no esclarecimento das comunidades portuguesas sobre o 25 de Abril de 1974), apenas compensada por uma enorme e rica correspondência com outros escritores e intelectuais portugueses e brasileiros, e pelas suas viagens de trabalho à Europa e, em 1972, a Moçambique e Angola, falando de Camões, no IV Centenário de Os Lusíadas.


É com toda esta vasta experiência, longamente marcada pelo exílio, que Jorge de Sena vai construindo a sua obra. Daí que ele sempre tenha entendido a sua poesia (o seu teatro, a sua ficção) como uma forma de dar testemunho de si mesmo e das suas circunstâncias, sem com isso menosprezar, antes pelo contrário, o trabalho de organização estética das emoções e dos sentimentos, ancorados na observação, na meditação e na rememoração de uma experiência de mundo concreta, no plano individual e colectivo. E dessa experiência fazem parte as visões de mundo que as obras de arte (literária, visual, musical) vão cristalizando, codificando, no decurso da história humana, entendida esta como uma peregrinação secular. O que, por sua vez, faz dessas obras de arte (dessas metamorfoses) objecto de uma experiência poeticamente meditada. Assim, a poesia (a obra) de Jorge de Sena, em que a ética e a estética se confundem, e em que o lirismo se mescla com um forte pendor especulativo e narrativo, deve ser lida, nas suas palavras, como uma “meditação sobre o destino humano e sobre o próprio facto de criar linguagem”.

Como possível e breve introdução a Jorge de Sena, excluindo de antemão a crítica, a história e o ensaio, bem como poemas e contos individuais, proponho aqui sete títulos, exiguamente comentados: As evidências (1955), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad loca infecta (1969), O Indesejado (António, rei) (1951), Os Grão-Capitães (1976), O físico prodigioso (1977) e Sinais de fogo (1979).


As evidências, um “poema em vinte e um sonetos” escrito entre Fevereiro e Abril de 1954, é a sua primeira grande sequência, forma que favorece uma espécie de pressão associativa, permitindo a configuração de um enredo de temas e motivos, aqui de natureza ético-política e teológico-divina, que, sob um fundo de erotismo, cria a ilusão narrativa de um “novo génesis”, de um presente caótico que precede um novo advento dos deuses, deuses esses que restabeleceriam o reino da humana divindade. Tema este que está na base de obras como Metamorfoses, O físico prodigioso ou a sequência Sobre esta praia… Oito meditações à beira do Pacífico (1977), que é, de algum modo, a verificação da impossibilidade desse advento.

Metamorfoses, seguidas de Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena (o título completo da colectânea), é também uma sequência de poemas, no caso motivada pela meditação sucessiva de objectos de arte visual (pintura, escultura, arquitectura), cuja ordenação, no volume, segue um critério cronológico dos referentes, assim se encenando um percurso épico da humanidade, mediado pela arte, pautado pela reflexão sobre a condição humana, a recusa da morte pela criação estética e a possibilidade de recuperação, em termos simbólicos, daquele “tudo / o que de deuses palpita e ressuscita em nós”, do poema “Artemidoro”.

O físico prodigioso – primeiro incluído em Novas andanças do demónio (1966) – é a possibilidade alegórica dessa humana divindade. A divisão simbólica em doze capítulos (seis de ascensão e seis de queda), a ficção medieval, a ambiguidade do nome (médico, corpo), o jogo de identidades entre as personagens (cavaleiro, diabo, Senhora, donzelas, frades), as alusões a mitos clássicos (Adónis, Bacantes) e ritos tradicionais, as referências cristológicas e pagãs, os códigos do amor cortês e do amor místico, tudo se congrega numa sagração do amor e da liberdade, da vida para além da morte, da redenção da condição humana nas metamorfoses de um corpo glorioso.


Peregrinatio ad loca infecta é considerado pelo poeta como um “esparso diário” dos seus exílios americanos, mas abrange também o lugar de exílio que lhe foi a pátria portuguesa. A obra está dividida em quatro blocos espacio-temporais que correspondem às quatro estações da sua peregrinação existencial: Portugal (1950-59), Brasil (1959-65), Estados Unidos da América (1965-69) e Notas de um Regresso à Europa (1968-69). Esta espiral dos tempos e espaços da biografia dá uma visão do modo como o eu biográfico possui uma historicidade que se constrói como errância e destino, como peregrinação pelos lugares inacabados ou imperfeitos do mundo que lhe foi dado viver.


A tragédia em verso O Indesejado é, a esta distância, uma premonição dessa errância e desse destino de mundo, da perspectiva de um reexame da identidade nacional, em ruptura declarada com o mito do sebastianismo, a que se sobrepõe a situação existencial de um exilado no interior do seu próprio país, quer no plano político da História (António, prior do Crato), quer no plano das condições políticas do momento de escrita da peça (1944-45). O poeta fala a propósito de “tragédias sobrepostas”, a menor das quais não terá sido aquele momento traumático da sua passagem pela marinha de guerra.

Este episódio biográfico, transposto parcialmente para o conto “A Grã-Canária”, de Os Grão-Capitães, recorda este entrelaçar entre a existência do poeta e a história pátria. Estes “contos cruéis”, diz Jorge de Sena, “devem ser lidos como crónica amarga e violenta dessa era de decomposição do mundo ocidental e desse tempo de uma tirania que castrava Portugal”. Nesta “sequência de contos”, é uma vez mais a matéria biográfica que serve de enquadramento ao testemunho duma época. A obra estrutura-se segundo uma cronologia das acções narrativas, de 1928 a 1958, localizadas no espaço, independentemente da ordem por que foram escritos (a exemplo de Metamorfoses e Arte de música), com excepção para o conto citado.

Nesta mesma linha de “co-responsabilidade do tempo e nossa” se situa o romance Sinais de fogo, parte de um ciclo romanesco que pretendia “cobrir, através das experiências de um narrador, a vida portuguesa desde 1936 a 1959”. Nesta narrativa, centrada no Verão de 1936, a eclosão da Guerra Civil de Espanha é o acontecimento que, como observou Mécia de Sena, catalisa “o despertar do protagonista para a realidade política e social, para o amor e até para o acto da criação poética”. Este romance de formação (ou Bildungsroman), seja qual for a relação entre o Jorge protagonista e o Jorge autor, é a obra-prima de um poeta que nos dá a ver o tempo e o modo de fazer-se um poeta.

Bibliografia de Jorge de Sena

Poesia

Perseguição (1942); Coroa da Terra (1946); Pedra Filosofal (1950); As Evidências (1955); Fidelidade (1958); Poesia-I (Perseguição, Coroa da Terra, Pedra Filosofal, As Evidências, e o inédito Post-Scriptum) (1961; 3.ª ed., 1988); Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena (1963); Arte de Música (1968); Peregrinatio ad Loca Infecta (1969); 90 e Mais Quatro Poemas de Constantino Cavafy (1970; 3.ª ed., 2003); Poesia de 26 Séculos: De Arquíloco a Nietzsche (1971-72; 3.ª ed., 2001); Exorcismos (1972); Trinta Anos de Poesia (antologia, 1972; 2.ª ed., 1984); Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos e Outros Textos (1973); Conheço o Sal... e Outros Poemas (1974); Sobre Esta Praia... Oito Meditações à beira do Pacífico (1977); Poesia-II (Fidelidade, Metamorfoses, Arte de Música) (1978; 2.ª ed., 1988); Poesia-III (Peregrinatio ad Loca Infecta, Exorcismos, Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos, Conheço o Sal... e Outros Poemas, Sobre Esta Praia...) (1978; 2.ª ed., 1989); Poesia do Século XX: De Thomas Hardy a C. V. Cattaneo (1978; 3.ª ed., 2003); 40 Anos de Servidão (1979; 3.ª ed., 1989); 80 Poemas de Emily Dickinson (1979); Sequências (1980); Visão Perpétua (1982; 2.ª ed., 1989); Post-Scriptum-II (1985); Dedicácias (1999).

Teatro

O Indesejado (António, Rei) (1951; 3.ª ed., 1986); Amparo de Mãe e Mais 5 Peças em 1 Acto (1974); Mater Imperialis: Amparo de Mãe e Mais 5 Peças em 1 Acto seguido de um Apêndice (1990).

Ficção

Andanças do Demónio (1960); A Noite que Fora de Natal (1961); Novas Andanças do Demónio (1966); Os Grão-Capitães: Uma Sequência de Contos (1976; 5.ª ed., 1989); O Físico Prodigioso (1977; 8.ª ed., 2001); Antigas e Novas Andanças do Demónio (1978; 6.ª ed., 2000); Sinais de Fogo (1979; 9.ª ed., 2003); Génesis (1983; 2.ª ed., 1986); Monte Cativo e Outros Projectos de Ficção (1994).

Obras Críticas, de História Geral, Cultural ou Literária

Páginas de Doutrina Estética, de Fernando Pessoa (1946; 2.ª ed., [1964]); Florbela Espanca ou a Expressão do Feminino na Poesia Portuguesa (1947; ed. fac-similada, 1995); Líricas Portuguesas: 3ª Série (1958; 2.ª ed., rev. e aum., em 2 vols.: I, 1975; II, 1983; 3.ª ed. do vol. I, 1984); Da Poesia Portuguesa (1959); História da Literatura Inglesa, de A. C. Ward (1960); «O Poeta é um Fingidor» (1961); O Reino da Estupidez-I (1961; 3.ª ed., 1984); A Literatura Inglesa: Ensaio de Interpretação e de História (1963; 2.ª ed., 1989); Teixeira de Pascoaes: Poesia (1965; 3.ª ed., aum., como A Poesia de Teixeira de Pascoaes, 1982); Uma Canção de Camões (1966; 2.ª ed., 1984); Estudos de História e de Cultura (1967); Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular (1969; 2.ª ed., 1981); A Estrutura de Os Lusíadas e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI (1970; 2.ª ed., 1980); Dialécticas da Literatura (1973; 2.ª ed., rev. e aum.: Dialécticas Teóricas da Literatura, 1978); Maquiavel e Outros Estudos (1974; 2.ª ed.: Maquiavel, Marx e Outros Estudos, 1991); Francisco de la Torre e D. João de Almeida (1974); Poemas Ingleses, de Fernando Pessoa (1974; 4.ª ed., 1994); Régio, Casais, a presença e Outros Afins (1977); Dialécticas Aplicadas da Literatura (1978); O Reino da Estupidez-II (1978); Trinta Anos de Camões, 1948-1978 (Estudos Camonianos e Correlatos) (1980); Estudos de Literatura Portuguesa-I (1982; 2.ª ed., aum., 1999); Fernando Pessoa & Cª Heterónima (Estudos Coligidos 1940-1978) (1982; 2.ª ed., 1984); Estudos sobre o Vocabulário de Os Lusíadas: Com Notas sobre o Humanismo e o Exoterismo de Camões (1982); Inglaterra Revisitada (Duas Palestras e Seis Cartas de Londres) (1986); Sobre o Romance (Ingleses, Norte-Americanos e Outros) (1986); Estudos de Literatura Portuguesa-II (1988); Estudos de Literatura Portuguesa-III (1988); Estudos de Cultura e Literatura Brasileira (1988); Sobre Cinema (1988); Do Teatro em Portugal (1989); Amor e Outros Verbetes (1992); O Dogma da Trindade Poética (Rimbaud) e Outros Ensaios (1994); Diários (2004); Sobre Literatura e Cultura Britânicas (2005); Poesia e Cultura (2005). No prelo: Sobre Teoria e Crítica Literária; Textos de Intervenção Política; Entrevistas e Inquéritos.

Correspondência

Jorge de Sena / Guilherme de Castilho (1981); Mécia de Sena / Jorge de Sena: Isto Tudo Que Nos Rodeia (Cartas de Amor) (1982); Jorge de Sena / José Régio (1986); Jorge de Sena / Vergílio Ferreira (1987) Cartas a Taborda de Vasconcelos: Correspondência Arquivada (1987); Eduardo Lourenço / Jorge de Sena (1991); Jorge de Sena / Edith Sitwell (1994); Dante Moreira Leite / Jorge de Sena: Registros de uma convivência intelectual (1996).

Antologias (selecção)

Poesia de Jorge de Sena, de Fátima Freitas Morna (1985); Antologia Poética de Jorge de Sena, de Jorge Fazenda Lourenço (1999); A Arte de Jorge de Sena: Uma Antologia, de Jorge Fazenda Lourenço (2004).

Algumas obras sobre Jorge de Sena

Studies on Jorge de Sena, org. Frederick G. Williams e Harvey L. Sharrer (1981); Estudos sobre Jorge de Sena, org. Eugénio Lisboa (1984); Jorge de Sena (n.º esp. Quaderni portoghesi), org. Luciana Stegagno Picchio (1983); A Poet’s Way with Music: Humanism in Jorge de Sena’s Poetry, de Francisco Cota Fagundes (1988); Homenagem a Jorge de Sena (n.º esp. Nova Renascença), org. José Augusto Seabra (1989); O Corpo e os Signos: Ensaios sobre O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, coord. Maria Alzira Seixo (1990); In the Beginning There Was Jorge de Sena’s Genesis: The Birth of a Writer, de Francisco Cota Fagundes (1991); Jorge de Sena: O Homem que Sempre Foi (Colóquio Internacional sobre Jorge de Sena, Universidade de Massachusetts, em Amherst, 1988), org. Francisco Cota Fagundes e José N. Ornelas (1992); Jorge de Sena: Una teoría del testimonio poético (n.º esp. Anthropos), coord. Antonio Sanchez-Romeralo (1993); Evocação de Jorge de Sena (n.º esp. Boletim do SEPESP), org. Gilda Santos (1995); O Físico Prodigioso, a novela poética de Jorge de Sena, de Orlando Nunes de Amorim (1996); A Poesia de Jorge de Sena: Testemunho, Metamorfose, Peregrinação, de Jorge Fazenda Lourenço (1998); Jorge de Sena: Uma Ideia de Teatro (1938-71), de Eugénia Vasques (1998); Metamorfoses do Amor: Estudos sobre a Ficção Breve de Jorge de Sena, de Francisco Cota Fagundes (1999); Jorge de Sena em Rotas Entrecruzadas, org. Gilda Santos (1999); Fenomenologia do Discurso Poético. Ensaio sobre Jorge de Sena, de Luís Adriano Carlos (1999); «Para emergir nascemos»: Estudos em Rememoração de Jorge de Sena, org. Francisco Cota Fagundes e Paula Gândara (2000); Jorge de Sena Vinte Anos Depois (O Colóquio de Lisboa, 1998) (2001); O Brilho dos Sinais. Estudos sobre Jorge de Sena, de Jorge Fazenda Lourenço (2001); Jorge de Sena: Uma Leitura da Tradição, de Ana Maria Gottardi (2002); Tudo Isto Que Nos Rodeia: An International Colloquium, org. Francisco Cota Fagundes e Paula Gândara (2003); A Correspondência de Jorge de Sena: Um Outro Espaço da Sua Escrita, de José Francisco Costa (2003); As Metamorfoses do Corpo e a Problematização da Identidade em O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, e Orlando, de Virginia Woolf, de Orlanda de Azevedo (2003).

Bibliografias

Índices da Poesia de Jorge de Sena (por Primeiros Versos, Título, Data e Nomes Citados), de Mécia de Sena (1990); Uma Bibliografia sobre Jorge de Sena, de Jorge Fazenda Lourenço (1991); Uma Bibliografia Cronológica de Jorge de Sena (1939-1994), de Jorge Fazenda Lourenço e Frederick G. Williams, com Mécia de Sena (1994); «Bibliografia sobre Jorge de Sena (1942-1997)», de Jorge Fazenda Lourenço (Boletim do Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena, Araraquara, n.º 13, 1998).

Retirado da Biografia de Jorge de Sena elaborada por Jorge Fazenda Lourenço in Instituto Camões

Uma outra substancialmente mais completa está disponível na Direcção Geral dos Livros e Bibliotecas

*Filmografia
*acrescentado por Joana Morais

Sinais de Vida (1984) e Sinais de Fogo (1995), filmes longa-metragem realizados por Luís Filipe Rocha, Produção (respectivamente) Prole Filmes e AB Films, Fundação Calouste Gulbenkian, Igeldo Zine Produkzioak, Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual (IPACA), MGN Filmes; Portugal

A Noite Saiu à Rua (1988) - curta animação, realizado por Abi Feijó, Produção Filmógrafo, Portugal

Jorge de Sena - Uma Fiel Dedicação à Honra de Estar Vivo (1997), documentário realizado por Diana Andringa, Produção RTP, Portugal

O Escritor Prodigioso (2005), documentário realizado por Joana Pontes, Produção Laranja Azul, Portugal

Sinais de Fogo: Jorge de Sena (2009) - Série Grandes Livros, Episódio XI, realizado por João Osório , Produção Companhia de Ideias para a RTP, Portugal


For the non-Portuguese readers, you can find a biography as well as a short selection of Jorge de Sena poetry at Poetry International. I'll leave you with one of Sena's most emblematic poems «Carta a meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya», in English «Letters to my children on Goya's Executions of the Third of May» based on a painting titled «El Tres de Mayo de 1808, o Los fusilamientos en la montaña del Príncipe Pío» by one of the most well-known Spanish Painters, Francisco Goya; a poem and a painting where the Iberian Historical common grounds touch and again meet over a century later.


Letters to my children on Goya's Executions of the Third of May

I don’t know, children, what world will be yours.
It’s possible (everything’s possible) that it will be
the world I wish for you. A simple world,
in which the only difficulty will come
from there being nothing that’s not simple and natural.
A world in which everything will be allowed,
according to your fancy, your yearning, your pleasure,
your respect for others and their respect for you.
It’s also possible that it won’t be this, and that this
won’t even be what you want in life. Everything’s possible,
even though we fight, as we must fight,
on behalf of our idea of freedom and justice
and – still more important – in steadfast
allegiance to the honour of being alive.
One day you will realize what a vast multitude,
as countless as humanity, felt this way,
loving others for whatever they had that was unique,
unusual, free, different,
and they were sacrificed, tortured, beaten
and hypocritically handed over to secular justice,
to be liquidated “with sovereign pity and without bloodshed”.
For being loyal to a god, to a conviction,
to a country, to a hope, or merely
to the irrefutable hunger that gnawed them from within,
they were gutted, flayed, burned, gassed,
and their bodies heaped up as anonymously as they had lived,
or their ashes scattered so that no memory of them remained.
Sometimes, for belonging to a certain race
or class, they atoned for all the wrongs
they had not committed or had no awareness
of having committed. But it also happened
and happens that they were not killed.
There have always been infinite methods for dominating,
annihilating quietly, gently,
through ways inscrutable, as they say of God’s ways.
These executions, this heroism, this horror,
was one episode, among thousands, that happened in Spain
over a century ago and whose violence and injustice
shocked the heart of a painter named Goya,
who had a very large heart, full of rage
and love. But this is nothing, children,
just one event, a brief event,
in this chain of which you are (or aren’t) a link
of iron and sweat and blood and a bit of semen
on the way to the world I dream for you.
Believe me that no world, that nothing and nobody
is worth more than a life or the joy of having life.
It is this joy that matters most.
Believe me that the dignity you’ll hear so much about
is nothing but this joy that comes
from being alive and knowing that no one has ever
been less alive or suffered or died
so that just one of you could stave off a little longer
the death that belongs to all of us and will come.
That you will know all of this with peace of mind,
with rancour toward no one, without fear, without ambition,
and above all without apathy or indifference
is my ardent hope. So much blood,
so much pain, so much anguish, must one day prove
– even if the tedium of a happy world torments you ­–
not to have been in vain. I confess that
very often, thinking about the horror of so many centuries
of oppression and cruelty, I have a moment of hesitation
in which an overwhelming bitterness makes me despair.
Are they or aren’t they in vain? And even if they aren’t,
who will resurrect those millions, who will restore
not only their lives but all that was taken from them?
No Final Judgement, children, can give them
that moment they did not live, that object
they did not freely enjoy, that gesture
of love they were going to make ‘tomorrow’.
And so the same world we create urges us
to treat it with care, as something that isn’t
just ours but has been entrusted to us
that we might respectfully watch over it
in memory of the blood that flows in our veins,
and of the flesh we’ve inherited, and of the love that
others did not love because it was taken from them.

© Translation: 1997, Richard Zenith

On Goya's «El Tres de Mayo de 1808, o Los fusilamientos en la montaña del Príncipe Pío» I've found an interesting and insightful article written by the renowned art critic Robert Hughes, and published in 2003 at the Guardian titled 'Goya's unflinching eye', of which I'll reproduce a small extract:

«On May 2, 1808, in the heart of Madrid, a crowd of citizens attacked a detachment of Mameluke (Moorish) cavalry led by a French general. The next day, May 3, the French struck back. Six years later, in 1814, Goya did two monumental paintings, so that these events should never be forgotten. The rising of May 2 1808 ( The Second of May 1808 ) and the execution of the partisans on May 3, 1808.

The Third of May 1808 is the picture against which all future paintings of tragic violence would have to measure themselves. It is truly modern, never surpassed in its newness, so raw that although it was a state commission it remained in storage, unseen by the public for the first 40 years of its life.

The surface is ragged: no smooth finish. The blood on the ground is a dark alizarin crimson smeared on thick and then scraped back with a palette knife, so that it looks crusty and scratchy, just like real blood smeared by the twitches of a dying body. You can't "read" the wounds that disfigure the face of the man on the ground, but as signs of trauma in paint they are inexpressibly shocking - their imprecision conveys the thought that you can't look at them.

The man about to be shot faces martyrdom in a clean white shirt, throwing out his arms in a gesture that recalls the Crucifixion, a gesture of indescribable power, flinging out life in defiance. The coarse, swarthy, dilated face - all vitality. The faces of the pueblo , the Spanish people, keep their individuality right up to the edge of the mass grave which is their destiny. They are the opposite of the utter anonymity of the firing squad - all identical backs, braced into the recoil of those big .70-calibre flintlocks. The men featureless, the hill featureless. This is the first truly modern image of war, the first to register the machine-like efficiency of oppression. It is as unlike all previous war paintings as Wilfred Owen's trench poems are unlike all Victorian war poetry. No glory; only pity and loss, and the defiant humanity of the victims.

We want to think of Goya as a liberal, a critic of absolutist systems, a foe of imperialism, relentlessly satirising superstition, exalting reason.»

For those who never had the opportunity of 'watching, smelling and breathing' the Art of the Spanish masters at Museo del Prado, in Madrid I urge you to make that journey.


7 comments:

  1. Pois... já agora deixo aqui o link para o seu Fernando Pessoa «As Bestas Que Nos Governam...», obrigada pela visita.

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  2. It is respectable to have no illusions, and safe, and profitable and dull.

    Joseph Conrad

    isar

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  3. Letter from Iberia

    R.I.P Madeleine

    The dead cannot cry out for justice; it is a duty of the living to do so for them.

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  4. Thank you Isar.

    Conrad in Lord Jim also wrote "It’s extraordinary how we go through life with eyes half shut, with dull ears, with dormant thoughts. Perhaps it’s just as well; and it may be that it is this very dullness that makes life to the incalculable majority so supportable and so welcome. Nevertheless, there can be but few of us who had never known one of these rare moments of awakening when we see, hear, understand ever so much everything in a flash before we fall back again into our agreeable somnolence." but is it really better to live our life with the "eyes half shut, dull ears, dormant thoughts", blinded to reality, not fighting with bravery for our beliefs, principles and dreams, in spite of all the desolation, disillusion, solitude and sadness that being «awake» and looking straight in the eye of mankind's dark heart, will doubtlessly befall upon us?

    Should we not demand and struggle for "that glimpse of truth" even if "(...)it is impossible to convey the life-sensation of any given epoch of one's existence that which makes its truth, its meaning its subtle and penetrating essence. It is impossible. We live, as we dream-alone..."* ?

    Or should we simply resign and leave it to the destiny, karma, fate? If only the judgement of history and the inevitability of justice were true...

    "Truth shall prevail — don't you know Magna est veritas... Yes, when it gets a chance. There is a law, no doubt — and likewise a law regulates your luck in the throwing of dice. It is not Justice — the servant of men, but accident, hazard, Fortune — the ally of patient Time — that holds an even and scrupulous balance."

    Refs.
    Joseph Konrad [Polish] Lord Jim, Heart of Darkness* and of course Nietzsche's On the Use and Abuse of History for Life

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  5. Gracias Iberian friend, I totally agree.

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  6. You're welcome Joana..just glad someone else had heard of this exceptional writer. I've only read Heart of Darkness, Nostromo and
    Lord Jim-but to say any of these/all of those books left an impression on me-would be a gross understatement.

    Conrad never flinches addressing the human stain (bows to Roth) that makes at times for uncomfortable reading - but is it not true that we only REALLY learn when we move out of our comfort zones ?

    There is a place in New Mexico..called

    'Truth or Consequences' pop. 7289

    what a splendid name (allegedly arrived at from a TV gameshow)

    To me that town's name sums up neatly the essence of Conrad's work..

    for every action...and so forth

    memo to self...read the rest of his works in Truth or Consequences

    isar

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