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A culpa dos McCann: o Puzzle

O caso que continua a mobilizar as atenções do país e do Mundo só é simples no nome: Maddie. Quando arrolado para as páginas de um livro sobrevive sem ficção. A realidade, bem mais complexa, intensa e empolgante que qualquer recriação, dispensa-a.

Reconstituição de um puzzle incompleto, com muitas peças soltas, ou “um relato fiel do trabalho de investigação policial que identifica falhas cruciais que
influíram decisivamente no caos em que o processo se tornou”, nas palavras do autor. Manuel Catarino repõe a ordem possível ao sabor dos avanços e recuos que pautaram uma das histórias mais mediáticas e globalizadas de sempre.

A revisão dos erros fatais reconduz o leitor a 3 de Maio, data do desaparecimento de Madeleine McCann do aldeamento da Praia da Luz, no Algarve. As últimas horas da menina inglesa em solo português, a “gigantesca pressão que se abateu de imediato sobre a Polícia Judiciária a partir de Inglaterra”, o jogo de hipóteses sobre a mesa, as voltas e reviravoltas de um enredo com desfecho
em suspenso.

Da suspeita de rapto, alimentada pelos pais, Kate e Gerry, à formação da teoria de morte, o jornalista percorre os diferentes cenários apontados e o rol de instantes
que ditaram o curso do ‘caso Maddie’. “O facto de nas horas após o crime, o laboratório de polícia científica não ter descoberto as manchas de sangue na sala do Ocean Club” é uma das faltas apontadas pelo autor, que inclui na obra uma entrevista ao criminalista e especialista na análise de vestígios José Manuel Anes.

Com a chancela da Guerra & Paz, ‘A Culpa dos McCann’ chegou esta semana às livrarias.

"A CULPA DOS MCCANN"

“Se o desaparecimento de Maddie fosse a trama de um romance de Agatha Christie, Hercule Poirot teria reunido o casal McCann e os sete amigos britânicos à beira da piscina do Ocean Club – e, de raciocínio em raciocínio, em menos de um fósforo, resolvia o mistério.

Os investigadores da Polícia Judiciária não fizeram assim. Agiram desde o primeiro momento condicionados por uma tese soprada ao mais alto nível a partir de Inglaterra – a tese do rapto.

Mas a intuição, poderosa arma da investigação criminal, dizia-lhes que a chave do desaparecimento de Madeleine era capaz de estar naquilo a que chamavam o «contexto britânico»: tinham a convicção de que os McCann e os amigos talvez soubessem mais do que diziam.

(...)

Todas as noites, os empregados do restaurante Tapas preparavam a mesa oval, mesmo à beira da piscina do Ocean Club, para o jantar de um divertido grupo de nove britânicos que ali passava férias.

Nenhum dos casais levava os filhos: as crianças ficavam a dormir sozinhas nos apartamentos. Começavam a chegar ao restaurante por volta das oito e meia. Gostavam de beber. Uns mandavam vir martinis e cerveja como aperitivos. Outros, como Kate, preferiam um daiquiri – mistura preparada no shaker com rum branco, sumo de limão e xarope de açúcar. Perdiam-se por vinho.

Elas encomendavam um branco fresquinho. Eles escolhiam tinto. Ao longo do jantar, que quase sempre se prolongava até perto da meia-noite, despachavam entre 10 e 12 garrafas, bem-dispostos.

(...)

Naquela noite de 3 de Maio, quinta-feira, Gerry e Kate McCann, ambos de 39 anos, foram os primeiros a chegar ao Tapas. Seriam umas oito e meia.

Trinta minutos depois, como acontecia desde que em 27 de Abril chegaram ao Ocean Club, todos os amigos já estavam acomodados à mesa oval perto da água iluminada da piscina: David e Fiona Payne, ambos médicos, pais de dois filhos pequenos; Russell O’Brien, médico, e Jane Tanner, também com dois rebentos; Mathew Oldfield e Rachel, médicos, que tinham uma bebé de 18 meses; e Dianne Webster, de 62 anos, mãe de Fiona. Nessa tarde, por volta das cinco e meia, Kate e Gerry passearam com os três filhos junto à praia, a cerca de 800 metros do aldeamento. Estiveram na esplanada do restaurante Paraíso.

Kate e o marido estavam com mais dois casais de ingleses. Os empregados lembram-se muito bem. Eram seis adultos e sete crianças. Só os pequenos comeram – do menu infantil. Madeleine comeu esparguete à bolonhesa. Os adultos pediram cerveja. Madeleine ainda comeu um gelado e brincou com o pai nos baloiços.

Foi a última vez que a criança foi vista publicamente. Todos abandonaram o restaurante Paraíso pelas seis e um quarto – e tomaram o caminho do Ocean Club. Daí a pouco mais de duas horas, depois de deitarem as crianças, os McCann estavam no Tapas para o rotineiro jantar com a roda de amigos.

(...)

Estava uma agradável noite de Primavera. Os clientes da mesa oval irradiavam alegria. Kate era a mais reservada. Pediram os aperitivos do costume – e encomendaram o jantar, peixe grelhado e espetadas de carne, regado com o vinho habitual. Os empregados não notaram nada de diferente.

Nada os levava a desconfiar fosse do que fosse. Mal sabiam eles que um misterioso crime iria, nessa noite, abalar a beatitude do Ocean Club da Praia da Luz e atirar o resort para os jornais e televisões de todo o mundo. Enquanto os adultos jantavam animados, oito crianças dormiam sozinhas em quatro apartamentos: os três filhos dos McCann, os dois de Russell O’Brien e Jane Tanner, os dois de David e Fiona Payne e o bebé de Rachell e Mathew Oldfield.

Apenas David e Fiona usavam um sistema de intercomunicadores para se certificarem de que as crianças não choravam.

Os empregados do Tapas, que por dever do ofício seguiam com particular atenção cada estalar de dedo na mesa oval, não deram nessa noite por muita gente se levantar da cadeira para ir ver os filhos.

Certo é que dois homens se levantaram, praticamente em simultâneo, escassos minutos após os pratos serem servidos, pouco depois das nove da noite. Um deles foi Russell O’Brien. O outro foi Gerry McCann. O resto do grupo continuou a comer e a beber.

Russell, médico, casado com Jane Tanner, só volta à mesa uma hora depois. Diz aos amigos que encontrou a filha mais velha, da idade de Maddie, muito indisposta: a menina vomitou e ele mudou a roupa de cama.

Gerry terá demorado cerca de 25 minutos. Para chegar ao apartamento, Gerry teve de contornar a piscina, sair do Ocean Club e percorrer cerca de 20 metros da rua mal iluminada até ao pequeno portão de acesso a oito degraus que terminam à porta.

De regresso ao jantar, cruza-se na rua com Jeremy Wilkins – um produtor de televisão, inglês, que Gerry só conheceu nas férias. Jeremy passeava a empurrar o carrinho de bebé para adormecer o filho. Os dois homens, que costumam jogar ténis no Ocean Club, cumprimentam-se e trocam dois dedos de conversa de circunstância. A rua está deserta.

Quando Gerry volta a sentar-se à mesa do jantar, Russell O’Brien ainda não tinha chegado – regressa, finalmente, em cima das 22 horas, quase meia hora depois de Gerry. Então, mal Russell acaba de explicar que a filha mais velha vomitara, Kate McCann pousa o copo de vinho branco e levanta-se para ir ver os filhos.

Os empregados já tinham levado 12 garrafas de vinho para a mesa oval – numa hora. Por enquanto, ainda está tudo calmo. Cinco minutos mais tarde, o Ocean Club consome-se num caos.

Kate McCann surge numa varanda das traseiras do apartamento, que dá para o interior do Ocean Club. Esbraceja aflita e chama pelo marido, Gerry, à mesa com os amigos. Kate está a cerca de 50 metros em linha recta. Todos a ouvem, mas nem todos a vêem por causa das palmeiras entre a piscina e o apartamento.

Os amigos levantam-se e precipitam-se em direcção à casa arrendada pelos McCann. Nesta noite, não chegam a tomar os digestivos. Adoravam cálices de amêndoa amarga. O jantar é interrompido. Só uma pessoa fica sentada à mesa: é Dianne Webster, mãe de Fiona.

Todos os outros correm para Kate. Encontram-na em transe: «Levaram a nossa Madeleine», repete, sem parar, aos gritos. Os amigos entram no apartamento, abrem e fecham portas, experimentam janelas, sobem e descem estores. Por entre a confusão, surge Dianne, a mais velha do grupo, que ficara à mesa e se dirigiu com passo lento para a casa dos McCann. Dianne vai ao quarto de Maddie – e vê como os gémeos Sean e Amelie, apesar do barulho, dormiam como anjos o sono dos justos.

O Ocean Club, até aí mergulhado numa tranquila placidez, transforma-se de repente num arraial de gritos e correrias. Hóspedes alarmados assomam às janelas.

Os empregados do resort que àquela hora ainda estavam de serviço também se aproximam do apartamento dos McCann. A vizinha de cima, Pamela Fenn, é dona do andar e vive ali há meia dúzia de anos. Também ela vai para a porta dos McCann. Recorda-se muito bem de Kate sem uma lágrima nos olhos. Pamela oferece-se imediatamente para chamar a GNR. Kate agradece-lhe – mas diz-lhe que não é preciso, porque já tinha telefonado.

A mãe de Maddie não disse a verdade. O primeiro telefonema para a Guarda foi feito por um empregado do restaurante Tapas por volta das 22h40 – mais de meia hora depois de Kate ter dado pela falta da filha. A primeira patrulha chega em cima das 23 horas. Os militares não falam inglês e recolhem os primeiros testemunhos com a ajuda de uma funcionária do resort que faz de tradutora.

(...)

Quando os primeiros investigadores da Polícia Judiciária chegam ao Ocean Club, escassos minutos depois da meia--noite, na madrugada de 3 para 4 de Maio, falam com Gerry e Kate.

A conversa decorre no apartamento do crime – o 5A. Os dois gémeos, Sean e Amelie, dormem profundamente. Os polícias, treinados para repararem nos mais ínfimos pormenores, observam curiosos como a casa está impecavelmente arrumada. Nem parece um local de férias onde três crianças pulam o dia inteiro.

Os sofás não têm uma ruga e as cadeiras estão milimetricamente alinhadas. Não há uma peça de roupa esquecida fora do sítio, nem sequer um brinquedo à vista. Só o cuddle cat de peluche, de que Maddie nunca se separava, está agora apertado nas mãos de Kate. A cozinha é um brinco, sem o mais pequeno vestígio dos restos do leite e das papas das crianças.

Os inspectores passam uma busca à casa. Não encontram na porta e nas janelas o mais leve sinal de arrombamento. Notam que o casal de médicos não tinha em casa um simples medicamento – ao contrário do que é habitual numa família em viagem de férias. Nessa noite, os McCann abandonam o apartamento e ficam alojados numa outra casa do Ocean Club. A cena do crime fica livre para a equipa de especialistas do Laboratório de Polícia Científica que parte de Lisboa.

Os gémeos são levados pelos pais. Kate transporta a menina nos braços, Gerry carrega o rapaz. Amelie e Sean continuam a dormir e nem dão pela mudança. O casal apenas é autorizado a levar o indispensável para passar a noite no outro apartamento.

A Polícia Judiciária encarrega-se, no dia seguinte, de entregar à família destroçada o resto das coisas. Os vestígios recolhidos no apartamento do crime não serviram para nada: estavam «contaminados» pela verdadeira multidão de curiosos que entrara naquela casa a seguir ao alarme.

(...)

Katherine Marie Healy e Gerald Patrick McCann – Kate e Gerry, para os mais íntimos – cresceram separados por milhares de quilómetros. Era improvável que um dia se encontrassem numa ilha de 50 milhões de habitantes.

Ela é inglesa de Liverpool, ele fez-se homem num bairro operário de Glasgow, na Escócia. A maioria dos escoceses é católica e os ingleses são maioritariamente anglicanos. A família de Kate faz parte da minoria inglesa fiel à Igreja de Roma. A religião e a fé serão determinantes para a união de Kate e Gerry.

A menina católica de Liverpool, quando resolve formar-se em medicina, vai estudar para a Universidade de Dundee, na Escócia – onde conhece o futuro marido, também aluno da escola médica.

Kate e Gerry não pertencem ao mesmo grupo. Ela é snob, ele é mais sociável. Mas Kate – segundo recordou um colega de curso ao jornal britânico The Mail on Sunday – perde aos poucos o irritante ar superior e rende-se à boémia. Frequenta os bares, bebe cerveja, diverte-se até de manhã. Termina a formatura sem tropeções. O livro de fim de curso, em 1992, recorda-a como uma das mais populares da escola médica da Universidade de Dundee. Era conhecida pela sugestiva alcunha de Lábios Quentes.

(..)

A cumplicidade entre os quatro casais alimentou o boato de que se entregavam a um jogo sexual de troca de parceiros conhecido por swing.

A insinuação surgiu pela primeira vez num blogue em língua inglesa e correu mundo. A Polícia Judiciária também se interessou, embora com mil cautelas, pelos segredos sexuais dos McCann. O assunto, de resto, apenas teria interesse para a investigação se a troca de parceiros ultrapassasse a discrição daquele grupo de amigos.

Caso o swing fosse aberto a outros homens e mulheres, o autor do rapto podia muito bem ser um dos presumíveis parceiros sexuais de Kate – ou, numa teoria mais rebuscada, a mulher dele, que por alguma razão se sentiria despeitada.

Um outro dado obrigava os investigadores a interessarem-se pelos hábitos sexuais dos McCann e amigos: Madeleine, tal como os irmãos gémeos mais novos, nasceu por inseminação artificial. Seria Gerry o verdadeiro pai biológico? Ou a menina não teria nascido por fertilização in vitro, e o pai seria um dos swingers? Todas as hipóteses estavam em aberto, como mandam os manuais da investigação criminal.

A Polícia Judiciária, ainda assim, apenas perseguia uma possibilidade – a do rapto. O crime podia ser justificado por uma de cinco razões: Madeleine fora subtraída por uma rede pedófila; roubada à família para ser vendida para adopção; raptada com vista ao pagamento de um resgate; levada pelo verdadeiro pai biológico; ou raptada por circunstâncias relacionadas com o swing.

(...)

Os olhos de Maddie não são iguais. O esquerdo tem tons de azul e verde. O direito é verde e exibe um sinal na íris – uma malformação, a que a medicina chama coloboma, popularmente conhecida como olhos de gato. Gonçalo Amaral fez tudo para os demover.

Kate e Gerry, obcecados com a divulgação dos retratos da filha desaparecida, teimosamente não lhe deram ouvidos. Pediu-lhes para, ao menos, não mostrarem Madeleine de frente. Em vão. Os McCann estavam irredutíveis.

A menina tem ainda um outro sinal, acastanhado, no músculo gémeo da perna esquerda – particularidade que não chegou a ser divulgada. Se Madeleine foi raptada para ser vendida a uma rede pedófila ou a uma família de adopção, como estava a ser investigado e os pais suspeitavam, a divulgação dos olhos, que a tornava reconhecida em todo o mundo, podia levá-la à morte – era esta, pelo menos, a firme convicção da Polícia Judiciária.

A menina passava a ser facilmente reconhecida. A sua vida deixava de valer um miserável cêntimo. O raptor dificilmente a conseguia vender. Já ninguém a queria – nem os pedófilos nem a família de adopção. Nenhum comprador ia aceitar correr riscos. Maddie estava marcada. Só uma solução restaria ao raptor: ver-se livre dela.

Kate e Gerry, apesar dos prudentes conselhos da Polícia Judiciária, divulgaram mesmo as imagens dos olhos da filha. Fizeram- no conscientes de todos os riscos. Um dia depois do desaparecimento, o rosto angélico de Maddie já tinha dado a volta ao mundo.”

(...)

Perfil:

Manuel Catarino inciou a carreira profissional no jornal 'Europeu' e destacou-se como repórter no semanário 'Tal & Qual'. Com 47 anos, é actualmente o chefe de redacção do Correio da Manhã.


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